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Entrevista a Pedro Neto, presidente da ong ORBIS – O Aveiro

17
Jan
Pedro Neto, presidente da Organização Não Governamental Orbis – Cooperação e Desenvolvimento
“Por um mundo que não permita que haja uma selecção do mais forte que explora o mais fraco”
Texto de Pedro Farias

Em 2004 fez a mochila e passou as férias de Verão numa missão humanitária em Angola. Nos anos seguintes seguiram-se outros destinos muito pouco paradisíacos: Moçambique e um Brasil amazónico paupérrimo e muito pouco conhecido dos turistas ocidentais.

Chama-se Pedro Neto, tem 27 anos e vive em Vagos. Foi seminarista, tirou o curso e um mestrado em Arqueologia, dá aulas de Religião e Moral na Escola Secundária de Ílhavo e já fez uma pós-graduação em Direitos Humanos.

Em Setembro de 2006 fez nascer a Orbis – Cooperação e Desenvolvimento (www.orbiscooperation.org), uma Organização Não Governamental (ONG) que surgiu do amuderecimento do serviço de voluntariado missionário organizado pela Diocese de Aveiro. É a primeira ONG criada em Aveiro.

Missão: tornar o mundo uma terra melhor para se viver.

Justifica-se a criação de uma Organização Não Governamental (ONG) em Aveiro?

Plenamente. Em primeiro porque praticamente todas as organizações deste cariz estão em Lisboa. O que nos chega a Aveiro é o que vemos no noticiário entre o desporto e a meteorologia. Vemos umas imagens de África e é só isso que temos. As pessoas, as instituições e as empresas querem ajudar, não sabem é como. Justifica-se a criação da Orbis por causa desta descentralização, por causa da vocação da cidade como cidade tecnológica que tem muito para dizer no campo da inovação e do desenvolvimento.

A ideia da criação da Orbis parte depois da sua participação em missões humanitárias através no Secretariado Diocesano de Aveiro.

O secretariado é um orgão de gestão interno da Igreja que trabalha num campo pastoral específico e que está vocacionado para um certo tipo de trabalhos. Para nos aventurarmos noutros projectos, com uma estrutura mais pesada financeiramente, que envolvesse toda uma logística mais complexa – e isso traduz-se em eficiência e resultados -, para irmos mais longe e fazermos as coisas acontecerem precisávamos de criar a Orbis para termos apoios ao nível dos recursos financeiros e materiais.

Que vantagens tem uma ONG ao nível da obtenção de apoios financeiros?

Através de uma ONG, que é uma figura institucional com personalidade juridica, já podemos fazer outras coisas tais como candidatarmo-nos a financiamentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e de Bruxelas e mais facilmente podemos tentar parcerias. Em nome da ONG podemos passar recibos de um donativo.

Onde utiliza a Orbis a utilizar esses donativos?

Os donativos que temos são encaminhados para vários projectos. Por exemplo, a adopção virtual.

O que é a adopção virtual?

É um projecto em que um ‘padrinho’ sustenta a alimentação e educação de uma criança em África, em Timor ou na Amazónia. Bastam 10 ou 15 euros para isso. Se porventura empresas tiverem connosco protocolos de responsabilidade social em que os montantes sejam maiores, não só em donativos financeiros como em serviços, nós passamos recibos. Não pedimos colaborações que não tenham um objectivo. Pedimos sempre para projectos pré-determinados e depois damos sempre feed-back de como as coisas estão a corer. Essa é a nossa responsabilidade. Donativos genéricos não são necessários. Há sempre algum objectivo para as ajudas que nos chegam, nem que seja para comprar papel para podermos trabalhar.

Que mais objectivos concretos tem a Orbis?

Estamos a fazer alguns programas de parcerias que visam desenvolver o projecto do comércio solidário. Neste projecto vamos tentar em Aveiro, com as superfícies comerciais e com lojas que queiram aderir, escolher um canto dos hipermercados ou das lojas em que eles nos vendam produtos de artesanato dos países de missão.

Este projecto consiste na importação de artesanato de populações pobres às quais pagamos o preço que nos pedem. Este projecto é bonito porque assenta nele todos os conceitos de desenvolvimento sustentado. Não estamos a dar esmolinha, estamos a adquirir um produto e a pagá-lo com toda a dignidade que isto implica.

Já se podem comprar esses produtos?

Nos hipermercados ainda não. Os contactos estão ainda numa fase muito informal e nada foi estabelecido protocolarmente. Vamos ter à venda na Internet e na nossa sede situada no Centro Universitário de Fé e Cultura.

E entretanto…

Entretanto estamos a juntar a papelada para termos o estatuto de ONGD – Organização Não Governamental para o Desenvolvimento. Através desse estatuto podemos trabalhar no campo do desenvolvimento de modo mais efectivo. Há uma equipa de trabalho que está a tratar disso e outra está a dinamizar projectos e actividades. Temos a página da Internet feita e vamos tendo campanhas pequenas. Vamos mandar agora voluntários para a Guiné, o Brasil e Angola. Fizémos campanhas de angariação de material escolar para eles levarem.

Os voluntários da Orbis vão desenvolver nesses países que tipo de trabalho?

Vão agora durante o Verão 19 voluntários para uma experiência de um mês para abrir os olhos e o coração para no futuro fazerem mais alguma coisa. Vão para missões salesianas que trabalham na educação. Vão animar grupos de jovens, dar aulas de reforço, apoiar nas escolas e dar acções de formação a professores. A ideia é mais tarde também projectarmos experiências de voluntariado mais longas e efectivas em que professores possam ir e dar aulas e formação de professores.

Dar a cana para pescar e não o peixe.

Exactamente, dar-lhes as ferramentas para que depois haja sustentabilidade nas coisas ou seja, que mesmo depois do regresso dos voluntários os efeitos do trabalho lá realizado perdurem pela acção e knowhow das pessoas de lá.

Este é o grande princípio da Orbis. Nós não somos super-heróis que vamos lá, resolvemos os problemas e voltamos. Essa maneira de pensar as coisas é errada e leva a que se gaste muito dinheiro que depois não dá em nada. O principal objectivo da Orbis é ir aos teatros da acção, ouvir as necessidades pelas pessoas de lá e com as nossas capacidades de cá vermos como podemos responder, e sempre de modo sustentado. Ou seja, ensiná-los ou dar-lhes material para que eles possam por si próprios resolver os problemas e suplantar essas necessidades.

A Obis já está a ajudar efectivamente no terreno?

Já estamos a apoiar a construção de duas escolas em Benguela, Angola, de um centro de acolhimento numa ocupação dos Sem Terra na Amazónia e de uma capela em Timor. Estamos a trabalhar também na formação dos futuros professores e no equipamento das escolas. Só a título de exemplo, temos um protocolo com a Escola Secundária de Ílhavo que está a equipar a biblioteca de uma das escolas em Benguela.

Estamos também à procura de parcerias que nos possam facilitar o transporte dos materiais – livros, canetas e material para duas salas de informática – para equipar as escolas.

Quando nasce o Pedro Neto com espírito de missionário?

Era miúdo e foram dois missionários passar uma semana à paróquia de Santa Catarina, em Vagos, dar testemunho da vida deles e ficaram alojados lá em casa. Uma criança ao ouvir alguém falar de África e da América Latina começa a sonhar e a imaginar. Aos 14 anos fui para o seminário e comecei a ter um olhar mais atento para essas questões.

Depois a Diocese, em 1997, começou a enviar jovens para ajudarem em África. Fui falar com o padre Jorgino, o responsável, e ele convidou-me para fazer a formação e para participar nos trabalhos do secretariado das missões da Diocese de Aveiro. E fui ficando.

A primeira missão acontece em 2004 em Angola.

Fui para Luena onde estive mês e meio. Às vezes penso que não se trata de coragem. É mais maluquice. Uma pessoa lança-se para o escuro e quando se apercebe já não pode voltar atrás.

Como foi experiência em Angola?

Em Angola fui como voluntário missionário. Bateu bem forte… Uma coisa é ver as notícias na televisão ou lê-las no jornal, outra é ver aquela realidade. E a revolta que é a incapacidade de fazermos coisas sozinhos olhando para necessidades tão grandes e perceber que eles passam fome porque não podem mesmo cultivar a terra. Muitos dos terrenos estão minados e à primeira enxadada pode rebentar uma mina. Depois toda a injustiça que a guerra fez e a nobreza das pessoas em não estarem a culpar nem o Savimbi nem o José Eduardo dos Santos.

Que tipo de ajuda prestou em Angola?

Estive num campo de refugiados em Luena, perto da fronteira com a Zâmbia, onde muitos angolanos estavam refugiados há uma vintena de anos. Estava muita gente a regressar. O nosso trabalho era acolher as pessoas, dar uma primeira refeição quente, um banho, uma consulta. Até eu cheguei a dar consultas e não sou médico… Por dentro estava a modificar-me. Estava a pensar que tínhamos de fazer alguma coisa, em sermos mais um grupo a fazer a sua parte para mudar o mundo.

Dessa experiência recorda algum episódio marcante?

As pessoas tinham um olhar para nós que incomodava. Incomodava porque era um olhar de esperança. Lembro-me que as pessoas olhavam para mim, que era novato naquilo, que não percebia nada de ajuda humanitária, mas tinham um olhar de esperança em relação aos voluntários como se estivessem a olhar para o Salvador que os iria libertar e dar uma ajuda. A inocência do olhar de esperança incomoda porque desinstala-nos.

E Angola é um país tão rico…

Infelizmente. Os países que têm petróleo tem problemas. E Angola tem petróleo, diamantes, mercúrios e muitos minérios. É um país riquíssimo. Mesmo em termos agrícolas, o milho lá dá três vezes ao ano. Aqui dá uma vez. Não quero entrar em ideologias mas o capitalismo, quando é desenfreado, em vez de promover a iniciatia e a prosperidade promove a ganância que leva a coisas horríveis. Como humanidade temos de reinventar um sistema económico novo que seja equilibrado, que não permita que haja uma selecção do mais forte que explora o mais fraco porque há riquezas para todos. Temos é de saber distribuir bem as coisas.

Depois, nos anos seguintes, esteve no Brasil e em Moçambique, países igualmente lusófanos, pobres, mas cheios de riquezas naturais.

Fui percebendo a lógica da pobreza extrema em que as pessoas têm toda uma grande beleza porque vivem em comunhão. Nesse aspecto estão muito mais avançadas do que nós em que o que conta é a competitividade, o crescimento económico desenfreado. Temos que perceber que não é por aí, que o consumo tem de ser para as nossas necessidades.

Fonte: Jornal O Aveiro

ed. 804, 19 de Julho de 2007

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